Goiânia – O delegado Joaquim Filho Adorno Santos, da Polícia Civil de Goiás, disse nesta quarta-feira (15/6) que a maquiadora e influencer de Anápolis Lari Rosa deverá ser indiciada por praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência. Em vídeo, ela debochou de vagas exclusivas para autistas em estacionamento de shopping em Goiânia.

Veja vídeo abaixo:

 

Titular do Grupo Especializado no Atendimento às Vítimas de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Geacri), o delegado antecipou ao Metrópoles que, preliminarmente, a conduta de Lari Rosa está prevista como crime no artigo 88, parágrafo 2º, do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015). “O caso está sendo investigado”, disse.

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Conduta agravada

De acordo com o delegado, a conduta da influenciadora digital é agravada ainda mais porque ela publicou o vídeo em rede social, o que também provocou revolta em diversas famílias de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). No vídeo, a maquiadora também zombou de “gordo estressado” e “veado”.

Lari Rosa gravou o vídeo ao chegar ao estacionamento de um shopping no Jardim Goiás, na região sul de Goiânia, e ver as sinalizações vertical e horizontal para as vagas exclusivas no local. Ela estava em um carro dirigido pela sua mãe, a professora de etiqueta Vania Heringer Rosa, que tentou conter os comentários da filha, mas sem êxito.

“Forma mais rápida”

O delegado ressaltou que a equipe de investigação está empenhada para concluir logo o caso, em busca de Justiça às pessoas que se sentiram ofendidas por causa das declarações. “Acredito que, até a próxima semana, [mãe e filha] já serão ouvidas”, afirmou ele. “A Polícia Civil espera fazer esse procedimento da forma mais rápida possível”, acrescentou.

Pessoas com transtorno do espectro autista têm direito a vagas especiais em estacionamentos em qualquer lugar do Brasil, de acordo com a Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. A norma definiu o autismo como uma deficiência, ampliando os seus direitos.

Depois da repercussão negativa, Lari Rosa e a mãe dela gravaram novos vídeos para pedirem perdão pelas declarações da maquiadora e influenciadora digital.

O Metrópoles não conseguiu contato delas até o momento em que publicou esta reportagem, mas o espaço segue aberto para manifestações.

“Muito ferida”

O vídeo provocou revolta nas redes sociais e indignação entre diversas famílias de pessoas autistas. A pensionista Jéssica Coelho Borges Escobar, de 29 anos, mãe de um garoto de 5 anos com autista, disse ao Metrópoles que se sentiu “muito ferida” ao ver as declarações de Lari Rosa no vídeo.

“Na hora, eu vi e fiquei com mistura de raiva e choro. É uma luta tão grande para a gente conseguir direitos para nossos filhos, como questão de vaga, prioridade na fila. Tenho um filho que não fala. É averbal. A espera para é uma coisa que o deixa muito agitado. Ela está ali [no vídeo] também debochando de veado, gordo. Fiquei indignada”, disse Jéssica.

Mesmo com o pedido de desculpas da influenciadora, Jéssica destacou que as declarações de Lari Rosa configuram “preconceito”. “Não é falta de informação. É algo de que se fala todos os dias. Temos várias pessoas famosas que tem filhos autistas. Ela não sabe como é uma família que tem filho autista. Fazer chacota disso tem que viralizar mesmo, serve de exemplo. Ela fez isso e tem milhões de pessoas que fazem, mas não por falta de informações”, reforçou.

“Luta grande”

O psicólogo mestre Lucas Landin, especialista na área e atuante com pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ressaltou ao portal que as pessoas com deficiência devem ter seus direitos respeitados, e não se deve acrescentar barreiras nas vidas delas. “Cada conquista é fruto de muita luta”, asseverou.

“Quando uma pessoa com autismo tem direito a uma vaga de estacionamento exclusiva foi porque a luta anterior foi muito grande. Isso tudo é baseado nas dificuldades que essas pessoas e suas famílias enfrentam no dia a dia. Dificuldades muitas vezes com um tempo de espera, alterações sensoriais, desregulação comportamental e que podem fazer parte da vida dessas pessoas”, ponderou o profissional.

“Punições cabíveis”

De acordo com o psicólogo, a conduta de Lari Rosa deve ser apurada pelo sistema de Justiça, através dos órgãos competentes, já que, segundo ele, o comportamento dela “fere os direitos e as conquistas de todos que estão nessa luta há um bom tempo e a dignidade e não deve ser aceito de maneira nenhuma por todos”.

“Se faz necessário as punições cabíveis e, também, a continuação do trabalho de conscientização, para que a cada dia mais as pessoas não repitam esse tipo de comportamento”, afirmou Landin. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil.

O shopping center informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não vai se manifestar sobre o caso.

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