Final melancólico (por André Gustavo Stumpf)

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O resultado da frustrada campanha eleitoral do ex-governador João Dória poderá se constituir no réquiem do PSDB, partido outrora influente, supostamente moderno e defensor do jogo democrático. Seus líderes significavam o que havia de vanguarda política nas últimas décadas desde os dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso. As privatizações, inclusive dos serviços de telecomunicações, a criação das agências reguladores e adoção da reeleição do presidente da República, nos moldes do exemplo norte-americano, caracterizaram o período.

FHC, com largo sorriso, passou a faixa presidencial a Luís Inácio Lula da Silva. Pela primeira vez, no Brasil, um operário chegaria à Presidência da República na plena vigência do regime democrático. Geraldo Alckmin e José Serra tentaram, em seguida, chegar ao poder. Não conseguiram. Aécio Neves também foi derrotado, mas reagiu. Não reconheceu a derrota e entrou no judiciário com recursos para impugnar o resultado. Perdeu.

Essa é a rápida história. Nas vésperas da eleição deste ano apareceram no PSDB dois candidatos. Um emergente, chamado João Dória. Outro patrocinado pela cúpula dirigente do partido, ex-governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, jovem de 36 anos, que tinha o apoio dos fundadores da sigla. Foi decidido realizar uma prévia para escolha do nome. Todos os filiados foram convidados a votar. Dória, governador de São Paulo, venceu. Os grandes nomes do partido, os tucanos tradicionais, não gostaram da renovação ocorrida dentro da legenda. E desde o dia seguinte da proclamação do resultado começaram a trabalhar contra seu próprio candidato.

Não há santos nessa história. Dória entrou no partido pela mão de Geraldo Alckmin contra quem trabalhou depois. A tal ponto que o ex-tucano procurou abrigo na chapa de Lula, na qualidade de candidato a vice-presidente da República. O ex-candidato do PSDB na campanha para governador se aliou a Bolsonaro. Criou o voto bolsodoria. Posteriormente, rompeu com o presidente. E confrontou Aécio Neves. Trabalhou intensamente pela expulsão do ex-governador mineiro do PSDB. Não conseguiu. Colecionou mágoas em vários cantos da legenda. Construiu barreiras que, mais tarde, se tornariam insuperáveis.

A cúpula do partido, sem nenhuma cerimônia, jogou fora o resultado das prévias, virou a mesa e liquidou a campanha de seu próprio candidato. Política é a arte do possível. Os integrantes da cúpula partidária insistem em que salvaram o partido de um vexame eleitoral, uma vez que as preferências por Dória rondaram sempre em torno de 5% dos votos do eleitorado. Porém, para quem se afirma arauto da democracia, anular os resultados das prévias é crime grave. Gera sérias consequências. E pior: o partido não se uniu depois de cometer a violência contra o curso natural da escolha do candidato presidencial. Ao contrário, as dissidências continuam vivas. Difícil acreditar em quem defende a democracia, mas não a pratica dentro de casa.

A responsabilidade pelo futuro do PSDB agora é da atual cúpula dirigente, que, aliás, nos últimos tempos andou orientando sua bancada no Congresso a votar com o governo Bolsonaro. Ficou esquisito para o partido dos tucanos trabalhar à sorrelfa contra seu candidato e não ter diretrizes claras para propor à Nação. A candidatura da Terceira Via caminha para ter a face da senadora Simone Tebet, filha de Ramez Tebet, político experiente que exerceu cargos eletivos em seu Mato Grosso do Sul e chegou a presidente do Senado. Foi uma figura importante naquela casa. Ela herdou o senso político do pai.

A senadora tem experiência administrativa e apareceu bem durante a comissão parlamentar de inquérito instalada no Senado Federal para apurar ilícitos cometidos pelo governo durante a pandemia. Ela foi firme e serena. Construiu imagem positiva. Pede os votos das mulheres e acena com a paz para ultrapassar o confronto estabelecido na política nacional. Não parece suficiente para romper o conflito estabelecido, mesmo porque vai receber o bombardeio do Planalto, dos petistas e até de Ciro Gomes.

Restará ao PSDB tentar algum protagonismo, na forma de oferecer o vice e negociar o apoio nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. É muito pouco para uma sigla que comandou o país e depois pilotou a oposição. Dissolveu-se no mar de contradições, vaidades, brigas menores e provincianismo. Nenhum projeto para o país, nenhum sinal de compreender a nova realidade internacional e a triste desconfiança que a cúpula está contribuindo para a reeleição do atual presidente. Talvez por essa razão, Aloysio Nunes Ferreira, importante líder do partido, foi vice-governador de São Paulo e senador pelo PSDB, esteja sugerindo o voto em Lula já no primeiro turno.

 

 André Gustavo Stumpf é jornalista ([email protected])

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