Privatização da Eletrobras é aceno de Bolsonaro ao mercado, mas não terá impacto eleitoral

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O sinal verde dado nesta quarta-feira (18) pelo Tribunal de Contas da União (TCU) à privatização da Eletrobras deve contar pontos para o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), especialmente junto ao mercado, mas não terá forte impacto eleitoral, positivo ou negativo. A avaliação é de especialistas que participaram do Timing Político, exibido pelo canal do InfoMoney no YouTube.

Sete ministros do TCU votaram favoravelmente à continuidade da privatização da estatal de energia elétrica: Benjamin Zymler, Bruno Dantas, Augusto Nardes, Jorge Oliveira, Antonio Anastasia, Walton Alencar Rodrigues e Aroldo Cedraz – este último, o relator. Vital do Rêgo Filho foi o único voto contrário. 

A primeira etapa do processo de capitalização da companhia havia sido concluída pelo TCU em fevereiro, com discussões, principalmente, sobre os valores envolvidos na operação. A intenção da equipe econômica do governo é concluir a desestatização até agosto deste ano, antes das eleições. 

“Vai ser uma vitória do Bolsonaro. É uma grande entrega”, afirma Júnia Gama, analista política da XP.  “O governo conseguiu amarrar bem o discurso político em torno da privatização. Não houve nenhuma entrega na agenda econômica nos últimos quatro anos. É importante gerar essa expectativa de que ele vai manter essa agenda em um eventual próximo governo.”

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, também destaca o fato de o governo ter frustrado as projeções mais otimistas de investidores em relação às reformas no primeiro mandato – o que reforça a importância da privatização da Eletrobras.

“O Bolsonaro não teve nenhuma grande entrega econômica ou reforma durante o governo. A reforma da Previdência foi no governo Temer e pelas mãos do Rodrigo Maia [ex-presidente da Câmara dos Deputados], a despeito do governo e com uma série de empecilhos”, afirma. “Bolsonaro não tem muito o que chamar de seu. E agora terá, com a privatização da Eletrobras. É uma sinalização para o mercado.”

Júnia e Melo lembram ainda que o atual presidente, historicamente, nunca foi afeito à pauta das privatizações. “Bolsonaro nunca foi privatista. Nem ele e muito menos os militares. Nesse sentido, não diferem muito da esquerda, do PT e dos governos Lula e Dilma”, compara Melo. “Ele nunca foi um grande defensor de privatizações, apesar de ter usado essa agenda para se eleger em 2018”, completa Júnia.   

Para o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, a privatização da Eletrobras é importante para o governo, mas não deve causar grande impacto no processo eleitoral.

“Essa é a privatização que ele pode entregar sem perder votos, diferente da questão da Petrobras. São sinalizações para o mercado, com a diferença que a privatização da Eletrobras está mais avançada, já virou lei. É também uma tentativa de criar uma cortina de fumaça para o tema que realmente interessa ao eleitorado, que é o preço da energia elétrica”, afirma.

“A opinião pública não enxerga a correlação da Eletrobras com a energia elétrica chegando na sua ponta da mesma forma como enxerga a Petrobras em relação ao combustível ou ao preço do gás”, conclui.

Ainda de acordo com Meirelles, a desestatização da Eletrobras deve ser usada na campanha para atingir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder nas pesquisas e principal adversário de Bolsonaro. “É a casca de banana que de alguma forma tentam jogar no Lula, se eventualmente ele fosse visto como uma ameaça de rompimento de contratos”, avalia. “É tentar jogar uma isca para Lula se manifestar em um tom maior e reviver no mercado um temor que sempre aparece, de que ele teria uma posição mais antimercado do que se esperaria.”

Segundo Júnia Gama, mesmo que pretenda reverter a privatização, o petista não terá condições práticas para levar essa ideia adiante. “Fica muito difícil para o Lula, mesmo que queira, porque foram incluídas cláusulas que dificultam extremamente a recompra pelo governo”, diz. “Seria um custo financeiro e um custo político muito grande para o Lula”, explica. 

Implosão do PSDB

Outro tema debatido durante o Timing Político foi a crise no PSDB, cada vez mais dividido em meio às discussões sobre uma eventual candidatura única da chamada “terceira via” à Presidência da República. O anúncio de um nome de consenso entre PSDB, MDB e Cidadania, inicialmente previsto para esta quarta, foi novamente adiado. Nos bastidores, tucanos tentam convencer o ex-governador de São Paulo João Doria – com baixa intenção de voto nas pesquisas e alvo de rejeição altíssima – a desistir da disputa. 

“A necessidade de uma terceira via não unifica nem mesmo o PSDB, que passou anos no poder e dividia com o PT o protagonismo no debate eleitoral”, afirma Meirelles. “Qual é a chance disso dar certo? Que tipo de imagem isso passa para o eleitor? Com esse fratricídio que estamos vendo no PSDB, isso só se mostra cada vez mais inviável”, avalia. 

Para Melo, foi justamente a ascensão de Doria, eleito prefeito de São Paulo em 2016, que deu início ao processo de implosão do partido que governou o Brasil entre 1995 e 2002. “O PSDB parecia que se colocaria como um polo político importante, assim como o PT. Mas não foi o que ocorreu. Não conseguiu renovar lideranças nem encontrar seu eixo político. Era o partido da social-democracia brasileira, e eu tenho uma avaliação de que o governo FHC foi, sim, social-democrata”, recorda. “Infelizmente, isso se perdeu. Não pode dar certo o que começa errado.”

Para Júnia, a grande batalha entre os tucanos já não gira em torno da sucessão presidencial – é sobre qual grupo vai ditar os rumos da legenda depois das eleições. “Ninguém ali tem expectativa de que o PSDB consiga fazer qualquer barulho nessa eleição. Eles estão pensando no comando do partido para o futuro do PSDB”, avalia. 

Assista, na íntegra, ao Timing Político desta semana no vídeo acima ou clique aqui. O programa é exibido ao vivo sempre às quartas-feiras, às 18h (horário de Brasília), no canal do InfoMoney no YouTube.

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