A lenda do jovem pasteleiro que virou ator e virou bombeiro e virou cineasta

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José Afonso dos Santos Filho chega ao Distrito Federal ainda criança, aos 5 anos de idade. Sua família veio do município de São João do Piauí, no interior desse estado, para buscar trabalho na Região Administrativa do Gama.

Os pais se adaptaram à nova cidade como comerciantes; porém, o filho deles, nosso futuro Afonso Brazza, começou a se encantar pelo cinema ao frequentar as sessões do Cine Itapuã e do Cine Amazonas. Ele, então, teve de procurar emprego um pouco mais adiante. Atraído pelas produções da Boca do Lixo, viajou para se apresentar pessoalmente aos peritos no ofício de fazer cinema.

Quando Afonso, ainda menor de idade, chegou a São Paulo, o primeiro emprego que encontrou não tinha muito a ver com cinema: ele fritava pastéis. O estabelecimento em que o jovem Brazza trabalhava, porém, ficava na Rua do Triunfo, coração pulsante da Boca do Lixo, entre produtoras independentes e distribuidoras internacionais de cinema. Anos mais tarde, o cineasta contou que, naquela oportunidade, conheceu profissionais renomados, como José Mojica Marins e Tony Vieira, enquanto eles comiam pastéis.

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Produtor, cineasta e ator de longa trajetória no cinema independente paulistano, Tony Vieira estava casado com Claudette Joubert, uma das atrizes mais bonitas e cativantes da Boca do Lixo. O jovem Afonso era forasteiro naquelas plagas, mas sabia muito bem sobre o casal mais quente da região. Apaixonou-se por Claudette quando ainda frequentava as salas do Gama, assistindo repetidas vezes a um mesmo filme de Vieira: Gringo, o Último Matador (1972).

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Tony Vieira tinha fama de galã e atuou em produções como Panca de Valente (1968), de Luís Sérgio Person. Esse filme era uma comédia com pistoleiros, leve e despretensiosa tentativa de faroeste no interior paulista. Os bandidos eram Átila Iório e o próprio Vieira.

Com o modesto sucesso de Panca de Valente, Tony Vieira percebeu que ali havia uma mina a ser explorada. A partir de então, todos os seus filmes giraram, de uma forma ou de outra, em torno do mesmo tema: forasteiros atraídos por dinheiro e sexo. A Filha do Padre (1975), estrelando Claudette Joubert, pode ser entendido como o apogeu dessa fórmula. Foi sua maior produção e também seu maior sucesso comercial. Vieira empregou uma mão de obra variada da Boca do Lixo, composta por equipe que incluía desde técnicos versados nas engrenagens de filmagem, montagem e revelação até jovens dispostos a todos os tipos de serviço braçal.

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Jovens como aquele pasteleiro que Tony Vieira começou a chamar de Afonso Brasília. Até sua carreira engrenar, Afonso seguiu fritando pastéis pela manhã e ocupando as tardes com demandas corriqueiras que vinham com o cargo não oficial de office boy da produtora de Vieira. Quando ganhou confiança e responsabilidade, assumiu a incumbência de conferir e limpar as cópias em 35mm de filmes que voltavam para a produtora após terem cumprido o circuito comercial em outras cidades.

Essas atribuições perduraram até o momento em que Afonso Brasília entrou em cena como um dos bandidos de A Filha do Padre. Foi seu primeiro trabalho como ator, ou pelo menos o primeiro que o futuro Afonso Brazza considerou digno de ser mencionado ao datilografar seu currículo.

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Ainda trabalhou como ator, como marceneiro e como assistente de eletricista em outros seis filmes de Tony Vieira — desde Torturadas pelo Sexo (1976) até Os Depravados (1979) — num ritmo intenso de cinema industrial. Também fez figuração em Os Trapalhões no Planalto dos Macacos (1976), de J.B. Tanko, apropriadamente vestido como o animal primata.

Ele considerou essa época, os quase 10 anos em que trabalhou na produtora Tony Vieira, como uma fase de aprendizado e como um ideal de cinema a se almejar. Vieira soltava um filme a cada três meses, sem auxílio de verbas públicas e editais de incentivo, e com a bilheteria de cada filme financiando a produção do próximo.

Na entrada da década de 1980, porém, as produções da Boca do Lixo, e em particular as de Vieira, enveredaram para além da chamada pornochanchada, tornando-se, não raro, filmes de sexo explícito. Os orçamentos caíram, as equipes de produção diminuíram, e Afonso Brasília preferiu voltar para o Distrito Federal, após passar em um concurso para o Corpo de Bombeiros.

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A invenção de Brazza

O nome artístico Afonso Brazza, conforme acreditam amigos como o cineasta Pedro Lacerda, é uma corruptela de Afonso Brasília, precedendo o posto que José Afonso dos Santos Filho ocuparia no Corpo de Bombeiros: soldado lotado no grupamento da Vila Planalto.

Não que o cinema tenha ficado para trás quando José Afonso voltou de São Paulo para o Gama. Já em 1982, Afonso Brazza fez valer seu nome artístico rodando o primeiro filme como diretor, produtor e astro: Procurador Jefferson e o Matador de Escravos.

Numa entrevista ao Correio Braziliense, publicada em 27 de dezembro de 1992, Brazza comentava, de forma vívida, essa estreia cinematográfica ocorrida 10 anos antes. “É a história de um ex-presidiário, em liberdade condicional, que é forçado a se vincular à máfia de matadores do Dr. Guttemberg. Jefferson descobre seu gosto por mortes e resolve matar todo mundo.”

Procurador Jefferson, segundo a matéria, foi filmado ao longo de 12 domingos, nas cercanias de Luziânia, com um elenco de 80 amadores — todos recrutados no Gama e adjacências.

Este filme e o segundo, que carrega o sombrio título de Os Navarros em Trevas de Pistoleiros entre Sexo e Violência (1985), foram negociados com um sujeito que se apresentava como distribuidor de cinema nas cercanias da Boca do Lixo. Brazza vendeu a ele os dois filmes e lhe entregou as cópias — as únicas cópias. Em uma versão dessa história, o camarada seria argentino. Em outra, paraguaio. Ambas as versões, contadas por Brazza anos mais tarde, dão conta de que o tal comerciante garantiu que exibiria as fitas naqueles países. Mas Brazza não teve mais notícias dele, e nunca soube do paradeiro ou do desempenho comercial desses filmes.

Santhion Nunca Morre (1991), o terceiro filme de Afonso Brazza, para todos os efeitos, era apresentado pelo cineasta-bombeiro como sua estreia para o mundo além do Gama. Sua produtora de cinema foi registrada em julho de 1987 junto ao Conselho Nacional de Cinema (Concine), órgão do Ministério da Cultura: AFB Studio e Produção de Filmes Cinematográficos.

Desse modo, o cineasta tornado produtor agora poderia, de fato, exibir comercialmente seus filmes, inclusive os submetendo ao crivo da Divisão de Censura e Diversões Públicas, do Departamento de Polícia Federal, para receber a classificação indicativa (nome recém-inventado para o termo “censura”, que caiu em desuso com o fim da ditadura militar).

Brazza passou a contar com uma filmadora 35mm para Santhion e, graças a essa câmera, teve em mãos um filme em película — cinema de verdade, como Tony Vieira fez. Brazza apresentou Santhion no Cine Itapuã e fez turnê com o filme pelas escolas públicas da cidade e de Luziânia.

Matéria do jornal O Globo, em 19 de maio de 1991, apresentava o sargento Brazza, do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, como “um piauiense de 36 anos” que produziu, na periferia da capital, um “western no mais autêntico estilo popular”, ao custo de Cr$ 2 milhões.

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“Faço tudo: sou roteirista, diretor, produtor, ator e eletricista”, dizia Brazza, citado no texto. “Só uso um câmera, a quem ainda estou ensinando a trabalhar.”

A reportagem, produzida pela sucursal brasiliense, funciona como cápsula temporal de como a grande imprensa tratava as cidades do Distrito Federal na época. “Para se ter a ideia do arrojo da produção de Santhion, primeiro é necessário conhecer Gama: com 200 mil habitantes, ela é uma das dez cidades-satélites em torno de Brasília, utilizadas quase que exclusivamente como dormitório pela população de baixa renda que trabalha no distante Plano Piloto. É o equivalente a um subúrbio carioca. Pois foi no Gama, com atores locais, que foram gravadas todas as cenas do western, a história de um bando de matadores bolivianos que atuam na fronteira com o Brasil.”

Sargento Brazza, no último parágrafo da matéria, anunciava sua próxima produção: Inferno no Gama.

A ascensão de Brazza

Aqui neste ponto, Claudette Joubert volta para a história. Desta vez, não mais como uma miragem ao longe, paixão platônica do jovem aprendiz da Boca do Lixo. Ela assumiu o papel de mocinha e par romântico nas aventuras de Afonso Brazza.

Em entrevista ao Jornal de Brasília, publicada no domingo 6 de outubro de 1991, Afonso Brazza falou sobre sua experiência na Boca do Lixo e anunciou as filmagens de seu quarto longa-metragem, Torturado — Inferno no Gama (título provisório).

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“Afonso Brazza promete, para as próximas semanas, casar-se com Claudete Joubert, ex-mulher e musa de Tony Vieira, o diretor que faleceu no ano passado, em São Paulo, aos 52 anos”, complementa a matéria, tratando Claudete com um único t, como na época dos filmes de Vieira.

A matéria afirmou ainda que o cachê de Claudette era de Cr$ 2,5 milhões, e que Brazza estava tentando arrecadar essa quantia entre seus patrocinadores, basicamente políticos e comerciantes do Gama.

“Além de protagonista do meu filme, ela será minha esposa”, definiu Brazza ao periódico.

Com a decadência da Boca do Lixo, Claudette ficou sem perspectivas na cidade de São Paulo. Afastou-se de Tony Vieira e praticamente retirou-se da vida artística. Até Afonso Brazza ir atrás dela no interior de São Paulo, município de Vinhedo, trazendo Claudette e a filha dela, Camila, para o Gama.

Inferno no Gama (1993), a primeira colaboração de Claudette com Brazza, é, em largos aspectos, uma reencenação do que se vira em Os Navarros e Santhion. Nas palavras de Brazza ao Jornal de Brasília: “Uma pancadaria de dar gosto”.

Como numa intriga digna de Alfred Hitchcock, Régis (Brazza) é acusado de um crime que não cometeu. Para provar sua inocência, como num épico de Sylvester Stallone, ele terá que derrotar, com os próprios punhos, os verdadeiros culpados. Claudette Joubert vive Raquel, filha de Cascavel (Anthonio Luiz Bidu), chefão da bandidagem. Raquel, no entanto, é moça de bom coração e logo percebe a pureza de Régis.

As filmagens foram feitas na zona rural do Gama, em chácaras de amigos, aos sábados e domingos, porque o elenco tinha que trabalhar nos dias de semana. À exceção de uma primeira cena, uma luta de boxe numa praça de terra batida, sem muito nexo com a história que segue, todas as cenas foram feitas no Cerrado e em matas ciliares. Ali, Raquel, literalmente em meio a tiroteios, encontra paz de espírito suficiente para banhar-se num riacho. Régis não pode se dar ao luxo de tal desfrute.

Gringo Não Perdoa, Mata (1995) também foi rodado nesse mesmo esquema de fim de semana com amigos no Cerrado. Brazza, porém, aproveitou-se dos conhecimentos de marcenaria e cenografia adquiridos na Boca do Lixo para levantar, em madeira e papelão, uma cidade cenográfica de faroeste. O set de filmagem foi montado dentro da Fazenda Irmãos Amorim. Seu proprietário, Zico Amorim, interpretou um bandido na fita.

Afonso Brazza já era personagem conhecido. Concedeu entrevista para Jô Soares, no SBT, e apareceu no programa de variedades Dóris para Maiores, de Dóris Giesse, na Rede Globo. O jornal Correio Braziliense do domingo 24 de abril de 1994 traçou a carreira em ascensão e trouxe minúcias de contabilidade. O cineasta explicou como conseguiu fazer cinema com o soldo de Cr$ 300 mil pago pelo Corpo de Bombeiros. Por exemplo…

Em vez de comprar as latas de negativo diretamente das lojas, ilustrou a matéria, Brazza as adquiriu por meio de colegas que tinham material sobrando, já perto do prazo de validade. “Hoje, uma lata de quatro minutos de filme tipo 4257, colorido, está custando por volta de Cr$ 150 mil. Ao comprá-la de terceiros, ele não gasta mais que Cr$ 40 mil”, esclareceu a reportagem. “Ainda que garanta não trabalhar com filmes vencidos, isso acontece fatalmente e pode ser observado nas cores desbotadas de Inferno no Gama.”

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depoimento de Péterson Paim diretor do documentário Cidadão Brazza

Eu encontrei o Brazza numa parada de ônibus. Fui falar com ele, me apresentei dizendo que eu também fazia filmes. Na época, eu estava sonorizando meu primeiro longa. Mais tarde, no lançamento do Tortura Selvagem no Cinemark, eu pude dar a ele uma cópia de O Chupa-Cabras, em VHS.

Eu digo que os filmes de Brazza eram, ao mesmo tempo, ingênuos e sem-noção. Era um cinema ingênuo, porque almejava um sucesso hollywoodiano, como o sucesso dos ídolos de Brazza, como o Rambo. Ao mesmo tempo, era sem-noção porque era um cinema com problemas técnicos, com elenco sem preparo. Isso tornava o cinema do Brazza um cinema único.

Quando fiz esse documentário sobre o Brazza, pude perceber melhor o respeito que as pessoas tinham por ele. Quem estava por fora muitas vezes ria e debochava. Mas quem estava por dentro e quem trabalhava com ele tinha muito respeito. Principalmente aqueles que estavam nos primeiros filmes.

A partir de No Eixo da Morte, começaram a entrar nos filmes dele muitas pessoas renomadas, pessoas conhecidas da sociedade, e essas pessoas já não tinham a mesma admiração. Elas respeitavam o Brazza, tanto que estavam lá fazendo os filmes dele. Mas já não tinham a admiração ingênua que os atores dos primeiros filmes tinham. Não tinham a crença ingênua no que faziam.

A curto prazo, suas estratégias de guerrilha cinematográfica nem sempre davam certo. Mas Brazza começou a amealhar parceiros para longo prazo. Em torno do artista, criou-se um lobby empresarial e político naqueles primeiros anos da década de 1990. Nesse sentido, tentou-se levar para o Gama o Pólo de Cinema e Vídeo que o Governo do Distrito Federal pretendia fundar.

O Pólo, como se sabe, acabou indo para Sobradinho, porém o bombeiro do Gama já se tornara um incendiário.

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A explosão de Brazza

Na cena-chave de No Eixo da Morte (1997), a personagem de Claudette Joubert é sequestrada por uma milícia de desordeiros. Herdeira de um milionário controverso, porém dona de bom coração, a personagem de Claudette precisará ser salva por um renegado, conhecido simplesmente como O Profissional.

Novamente os papéis e as dinâmicas são muito próximos do que já se viu em filmes anteriores de Afonso Brazza. Mas Claudette, importante notar, não é sequestrada no meio do Cerrado, na beira de um açude, enquanto se banhava num riacho. O crime ocorre no mirante da Torre de TV de Brasília. Afonso Brazza, em seu sexto longa-metragem, estava finalmente no coração da capital da República.

Rambo do Cerrado: o título do segundo caderno do Jornal de Brasília da quarta-feira 17 de setembro de 1997 não permitiu mal-entendidos, assumindo, em letras garrafais, a alcunha informal que já cercava Afonso Brazza. Mesmo que tenha passado por seis filmes antes de pisar no Plano Piloto calçando as botinas de O Profissional, sua fama o precedeu.

Inferno no Gama, contabiliza a matéria do Jornal de Brasília, foi visto por um público total de 3,6 mil pessoas em sessões do Cine Clube Porta Aberta, no Gama, e do Cine Brasília, na Asa Sul. No Eixo da Morte foi lançado com exclusividade no Cine Márcia, do Shopping Conjunto Nacional, para só depois chegar ao Cine Itapoã, do Gama. Brazza pretendia levar esta obra para Bahia e Minas Gerais em seguida.

No Eixo da Morte, ainda segundo a reportagem, custou R$ 125 mil, quantia amealhada entre a rede de supermercados Frota, do Gama, o Grupo Karim de salas de cinema e a Fundação Cultural do Distrito Federal. A cópia do filme, pela primeira vez na carreira de Afonso Brazza, trouxe o selo do Ministério da Cultura, mediante a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual. Sinal de que o bombeiro do Gama já não era mais um total outsider.

Outra novidade trazida por No Eixo da Morte é a presença, em cena, do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal; a corporação parecia, assim, notar que tinha em Afonso Brazza um belo relações-públicas. Essa parceria se repetiu nos filmes seguintes. Agentes e carros dos bombeiros — e da polícia civil — cruzam a tela, prestes a intervirem na ação. Eles emprestam dinamismo e dramaticidade por um momento, porém O Profissional terá que resolver tudo sozinho.

Quase três anos depois de sua estreia no Cine Márcia, No Eixo da Morte chegou à cidade de São Paulo para uma sessão especial no então Espaço Unibanco da Rua Augusta, em julho de 2000. A iniciativa consistiu em uma volta às origens, um tanto peculiares, empreendidas por esse artista de cinema, certa feita apelidado Afonso Brasília, na Rua do Triunfo.

Naquele momento, o aprendiz da Boca do Lixo circulou como autor cult entre o público do cinema de arte e frequentadores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Pouco antes da exibição de seu filme, Brazza participou de uma mesa redonda ao lado do cineasta Simião Martiniano e do produtor Talício Sirino.

Martiniano apresentou na mostra A Moça e o Rapaz Valente (1999), filme realizado em Pernambuco e tributário da literatura de cordel. O goiano Sirino representou a fita de ação Fronteira Sem Destino (1995). O debate que reuniu os três foi chamado de Cineastas Fora de Circuito – uma maneira de os organizadores se referirem não apenas a profissionais que operam fora do circuitão Rio-São Paulo, mas também a certo cinema de entretenimento retratado seguidamente na imprensa como “primitivo”, “naif” ou “trash”, por aspectos mambembes e canhestros de realização.

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Foi mais ou menos nessa época que Afonso Brazza começou a se apresentar como “o pior cineasta do Brasil”. Seu amigo e colaborador Pedro Lacerda assume a autoria da ideia de tentar criar um interesse em torno dos filmes de Brazza, por meio dessa jogada autopublicitária de aparente antimarketing. Brazza, a princípio, não gostou nada disso, mas depois, já resignado, começou de fato a brincar com esse título.

Fez grande sucesso, anos antes, o filme Ed Wood (1994) em que o cineasta Tim Burton, do alto de seu melhor momento em Hollywood, romantiza o infame diretor de filmes B da década de 1950. “Se Ed Wood era o pior cineasta do mundo, por que Brazza não seria o pior do Brasil?”, provocava Lacerda.

Sétimo longa-metragem de Afonso Brazza,Tortura Selvagem — A Grade (2001) veio nessa escalada e ficou quatro semanas em cartaz no Cinemark do Pier 21. Não raro, o cineasta permanecia ali, de pé, no saguão do cinema, sempre de boina e uniforme de bombeiro perfeitamente passado, cumprimentando o público. Saudava uma nova plateia para ele, agora bastante distante de seu círculo de conhecidos no Cine Itapoã.

Dois roqueiros do quarteto Raimundos, Rodolfo e Digão, participaram de Tortura Selvagem. O produtor Paulinho Madrugada lembra que a banda, no auge de sua popularidade, veio ao Distrito Federal tocar na Facita, em Taguatinga, quando os integrantes do grupo aceitaram o convite intermediado pelo próprio Paulinho.

A reportagem do Correio Braziliense não deixou passar a oportunidade de registrar o encontro das três celebridades, em matéria publicada no caderno de Cidades em 9 de junho de 2000. Sob o título Pra Chorar de Rir, o texto traz breve desabafo de Brazza em meio às filmagens.

“Eu faço com seriedade, mas o pessoal ri, né?’’

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depoimento de Paulinho Madrugada produtor cultural e ator de Tortura Selvagem e Fuga Sem Destino

A primeira vez que eu soube dele foi ao ver o cartaz de Inferno no Gama, um dia quando eu estava saindo de uma sessão no Cine Brasília. Fiquei curioso. Então, ouvi falar mais dele. Depois, eu estava trabalhando para fazer o show do lançamento do segundo CD do Câmbio Negro e a gravadora deles, a Discovery, era ali no Conic. Foi quando eu conheci o Brazza pessoalmente.

Ele estava fazendo casting do próximo filme, mas não foi procurar profissionais na Faculdade Dulcina, nada disso, ele estava fazendo a seleção de elenco no meio da rua. Peguei o telefone dele, entrei em contato, pedi pra ir na casa dele, comprei as fitas dos filmes e fiquei fascinado. Ele era uma figura única no mundo.

Começamos uma relação de amizade muito grande. O primeiro filme que eu participo é No Eixo da Morte. Ele me chamou para ser ator, mas eu não estava preparado. Então pedi para ele botar a banda Os Wallaces; o Brazza filmou um show deles na Calourada da UnB, no estacionamento do Minhocão, e essa gravação foi a cena de abertura do filme. Depois fizemos outra filmagem com a banda numa boate do Conic, que também não dava pra entender muito bem o que tinha a ver com a história.

Como eu o ajudei muito, ele me deu a grande honra de assinar como coprodutor de No Eixo da Morte. Ele pedia para que eu comprasse negativos e eu também ajudava a pagar as contas, às vezes até mesmo as despesas pessoais dele, como água e luz. Ele estava sempre precisando desse tipo de ajuda.

Acabei aceitando trabalhar como ator no filme seguinte, Tortura Selvagem — A Grade. A primeira cena que eu gravei é também a primeira cena em que eu apareço no filme. Eu estou ali andando no Setor Hoteleiro e, de repente, surge um cara rastejando para fora dos arbustos, todo ensanguentado, me pegando pela perna. E a gente começa a trocar a maior ideia! Eu falo um negócio assim: “Oi?”. E o Brazza me diz: “Confia em mim, amigo”. Assim, do nada! Eu digo para ele que então vou tentar ajudá-lo. E ele conclui a nossa conversa: “Você está certo, o inocente que paga não deve, e quem deve não paga, mas mesmo assim vamos ser amigos”.

Era a minha primeira cena de cinema na vida e eu não tinha entendido nada! Ele tinha dito para mim que era apenas um ensaio. Pode ver no filme que eu estou perdidão, dou umas olhadas para a câmera. Mas pensava que, tudo bem, podia errar, era apenas o ensaio. Quando a cena terminou, beleza, perguntei pra ele como tinha sido e se poderíamos filmar pra valer. Então ele me disse que já tinha filmado.

Tortura Selvagem promoveu ainda o reencontro de Afonso Brazza com José Mojica Marins, um antigo habitué da Boca do Lixo. Mojica voltou a encarnar seu mais célebre personagem, desta vez em pleno Planalto Central do Brasil. Sol a pino, Zé do Caixão brota do fogo do inferno — pneus queimados na Praça dos Três Poderes — para estender a Afonso Brazza um manto que impediria inimigos de lhe fazerem mal.

O patuá de Zé do Caixão não garantiu final feliz para Maicon, que se veria tragado pelo próprio desejo de vingança. Afonso Brazza, porém, ainda viveria um derradeiro (anti-)herói no papel de Trovão, protagonista de Fuga Sem Destino.

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O oitavo filme de Afonso Brazza foi também seu maior orçamento na carreira. A produção do longa-metragem teve investimento da cifra recorde de R$ 340 mil, segundo registrado pelo jornal Tribuna do Brasil em 16 de janeiro de 2002. Uma aventura cujas filmagens, realizadas entre agosto de 2001 e março de 2002, mobilizaram efetivos da Polícia Civil, além de sua costumeira trupe de colaboradores, com o reforço de Frank Aguiar e banda.

A ideia de Brazza consistia em finalizar Fuga Sem Destino até setembro de 2002, a fim de lançá-lo em mostras de cinema no Rio de Janeiro e em São Paulo, eventos que geralmente acontecem nos últimos três meses do ano. Essa expectativa não se confirmou, devido a atrasos na pós-produção. E Afonso Brazza, com a saúde declinando velozmente, recolheu-se em seu sítio do condomínio Eldorado, sem sequer contar para Claudette Joubert e para os amigos mais próximos exatamente o que estava acontecendo.

Sentindo a falta do amigo, que costumava buscá-lo quase toda semana para tratar de questões de produção, Pedro Lacerda foi atrás de Afonso Brazza. Quando chegou ao Eldorado, conta Lacerda, encontrou Brazza sem forças para ficar de pé.

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depoimento de Pedro Lacerda cineasta e amigo de Afonso Brazza

Quando almoçávamos juntos, no início de 2003, o Brazza se queixava de dificuldade de engolir e dor na garganta, imaginava que tinha algo no esôfago. Ele fez vários exames no HRAN [Hospital Regional da Asa Norte], mas o médico não chegou a um diagnóstico, disse apenas que entraria em contato para agendar uma cirurgia.

Depois disso, Brazza praticamente não saiu mais de casa, ficou sozinho em sua chácara, no condomínio Eldorado. Até essa época, ele me ligava quase todos os dias; de repente ele passou um mês sem me ligar e, quando eu ligava pra ele, não respondia. Quando um dia ele, enfim, me atendeu, desconversou quando eu perguntei sobre sua saúde, me disse apenas que ia à farmácia tomar uma injeção e depois voltaria para se deitar.

Então, eu me lembrei do Ricardo Noronha, que era muito amigo do Brazza, deputado federal e uma pessoa muito influente. Noronha conseguiu uma vaga para internação no Hospital de Base, mas, quando chegou na chácara para pegar o Brazza, percebeu que ele já estava muito debilitado, não tinha mais forças para ficar de pé.

No Hospital de Base, ficamos sabendo que realmente não havia muito mais a ser feito, não adiantaria fazer cirurgia. Nosso horário de visitação terminava às 16h, mas o médico liberou para que a gente ficasse mais tempo. Só isso já deixou claro que era apenas questão de tempo. No dia seguinte, quando voltei lá, Brazza me pediu para que terminasse o Fuga Sem Destino. Quando cheguei em casa, mais tarde à noite, recebi a notícia da morte dele.

Coube a ele, Pedro Lacerda, a missão de finalizar Fuga Sem Destino — um périplo que lhe ocupou os dois ou três anos seguintes — e, assim, com o herói ausente, encerrar dignamente a mais inesperada e empolgante trajetória cumprida no cinema brasiliense.

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