Asas do desejo (por Paulo Delgado)

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É adoecedor o baixo apetite pelo progresso que nos caracteriza. A fraqueza crônica da ordem econômica e social brasileira, comparativamente ao que ocorre no mundo, deveria produzir  mais humildade no sistema político. Não é o que ocorre, todavia. É neste quadro que a polarização é um papa-defunto. Própria do segundo turno, mas havendo tamanha torcida dos influentes para que aconteça já, parece um enterro da mudança. Se não vai mudar nada mesmo, melhor aderi logo e parar de pensar.

De um lado o candidato de costume, de outro o de ocasião. Pequena é a graça, não tão misteriosa, a de ter no ringue quem fala o que o eleitor quer ouvir, contra quem fala o que o eleitor quer falar. Nem sempre dá certo. Por isso, no dia seguinte, ambos saem a se explicar. Querem chocar-se, para chocar o público que quer estar chocado.

Falta na cerimônia de tal rotina aquela beleza particular que aponte para paixão nova. São amores antigos, aliados-desalinhados, parados no tempo, casamento em crise, encalacrado, do qual ninguém consegue se livrar. O que resta é infligirem dor um ao outro. Todo diálogo em torno deles tem um senão, a frase solta, desconfiança, ofensa, cobrança. O civil, melhor seria querer um outro; o militar, pior será querer a si mesmo. É preciso salvá-los do erro de interpretação da realidade em que vivem e da confusão mental como se apresentam. Feridos, ferindo, não parecem bem, ninguém os freia, antes os acelera.

A sustentação sincera que possuem, maior no mais velho, menor no mais novo, não lhes dará legitimidade constitucional para fazerem bom governo. O divórcio será litigioso, traumático, interminável. Novas provas de infidelidade a princípios surgirão, desmoralizando qualquer valor e levando junto a justiça que usa e abusa desse casamento belicoso.  Rixa esquerda-direita que domina o país em todo o período sob a Constituição de 1988, por culpa da interpretação binária que a elite dos três poderes faz da Carta para seu usufruto.

O eleitor não precisa andar no passo de candidato. Ajuda mais ficando atento sobre qual fenômeno atua sobre sua imaginação. Para os adoradores de dinheiro é sempre a economia. Eles costumam chamar os outros de estúpidos quando veem ameaçada sua preferência. Aguarde, não será a economia a decisiva, ouso dizer estupidamente.

Os moralistas levam tudo para o lado pessoal e logo encontram um jeito de propor uma conversão, internação ou tratamento de personalidade.  Os ricos jovens não estão nem aí. Sozinhos mesmo estão os que vivem em cidades destruídas, bairros pobres, os que se viram para trabalhar legais, famílias simples e os sonhadores. São os que se salvam pela solidariedade de gente boa, uma mercadoria em falta no mercado oficial dos sonhos e das ilusões.

Os vícios usados para captura de votos são flagrantes. Claro que há gradações nos valores que exalam dos dois.  Mas não deve levar ninguém a não querer entender porque dura, tão sensivelmente, há mais de 40 anos, a fama destes dois paradigmas de pugilistas.  Sempre em combate em seus ringues tribais, rurais, urbanos, suburbanos e agora, ironicamente, no mesmo ringue nacional, um contra o outro, face a face. Difícil imaginar o revigoramento da energia por mudança em um ambiente enclausurado e reduzido a viver a razão do outro, o senhor candidato. Que parecem nos dizer que é obrigatório viver com eles a vida inteira.

Num país devastado pela hibernação da razão e do sentido, inconsciente dos instrumentos e das finalidades da paixão política, uma falsa luta entre anjos malévolos e benévolos prospera. Enquanto o povo, o anjo caído, permanece joguete nas asas do desejo dos que mais usufruem de sua condição.

 

Paulo Delgado (Sociólogo e Cientista Político foi constituinte e deputado federal até 2011. É conferencista e consultor de empresas)

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