por que jovens querem aprender “boas maneiras”?

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Guardanapos de pano sempre no colo, cotovelos fora da mesa, o garfo na mão esquerda e jamais comer de boca cheia. Acostumado a participar de jantares requintados, ou não, você provavelmente foi apresentado às regras de etiqueta. As chamadas boas maneiras não são exatamente uma novidade, mas se consolidaram como a nova febre de conteúdos do TikTok.

Na época dos faraós egípcios, a maneira quase ritualística de se portar à mesa separava a nobreza dos escravos. Quando Luís XIV governava a França, a padronização de costumes durante os banquetes teve seu apogeu. Mais de três séculos depois, nestes tempos de redes sociais, as hashtags #etiqueta e a versão em inglês, #etiquette, somam quase 4 bilhões de visualizações, sem contar as variações do tema.

Ainda que esse conjunto de convenções sociais tenha surgido na corte dirigida aos nobres, há muito ela desceu do pedestal e teve que se ajustar a novas realidades. Com o fenômeno no universo digital, conteúdos sobre como se portar de forma “adequada” em sociedade adquiriram novas roupagens e atores, mas nunca saíram de cena.

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Basta rolar a rede social de vídeos para ser apresentado, ao menos uma vez, a um produtor de conteúdo que te ensina sobre os utensílios usados em determinadas refeições, como cumprimentar alguém com educação, o que fazer em um encontro, andar de salto alto e até ler um cardápio ou comer um bolinho com elegância.

“Falar sobre etiqueta e dar dicas sobre o que fazer ou não em público são construções culturais que também precisam de atualizações, novas linguagens e espaços de fala”, adianta Madeleine Muller, professora de moda e comportamento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Ao que tudo indica, o TikTok substituiu manuais de etiqueta e as antigas aulas de boas maneiras. Engana-se, porém, quem enxerga na demanda por esse tipo de conteúdo um mero reforço do elitismo. De acordo com a especialista, “todas as camadas da sociedade podem ter seus ritos e cerimoniais, reinterpretando códigos e adaptando às próprias realidades e contextos”, completa.

De manuais de etiqueta a vídeos virais

O vídeo publicado pela influenciadora Sofia Marbella, em que ela ensina como segurar uma taça de champanhe em uma mão, a bolsa na outra e ainda cumprimentar alguém com um aperto de mão — ao mesmo tempo — teve mais de 11 milhões de visualizações na rede.

@sofia.marbella Cocktail party tip #fyp #goodmanners #etiquettetips #foryoupage #viral #ladyetiqueta #sandro #puenteromanomarbella #marbella ♬ Stunnin’ (feat. Harm Franklin) – Curtis Waters

Além de Sofia, existe uma extensa lista de produtores de conteúdo com somas altíssimas de engajamento que falam, especificamente, sobre como se portar em público. A brasileira Amanda Mirelly é acompanhada por quase 1,1 milhão de seguidores e ensina como ser uma “lady”. Krys Ferrari acumula 4,7 milhões de curtidas em conteúdos, também, sobre requinte.

@ladyamandamirelly #etiqueta #etiquette #elegancia #postura #comportamento #elegant #elegante #elegance #chic #mannersmatter ♬ TiK ToK – Kesha

Segundo o especialista em Marketing digital Thiago Cavalcante, o nicho de comportamento está em franca ascensão nas redes sociais. “Os usuários buscam nos influenciadores dicas de como se vestir, o que comer e até mesmo o que pensar. Esse conteúdo acaba sendo bem recepcionado, pois eles informam a maneira que seria ‘correta’ de se comportar em sociedade”, comenta.

Esse crescimento é pautado em uma lógica que leva usuários a acumularem milhões de fãs nas redes sociais, segundo o empreendedor digital Felipe Chaves. “Seguimos pessoas na internet por cinco motivos básicos: queremos ser quem ela é, ter o que ela tem, conhecer o que ela conhece, fazer o que ela faz, ou saber o que ela sabe”, argumenta.

Na visão do profissional, a percepção dessas motivações demonstra como o universo digital é permeado pela vaidade. Existe um desejo de ser aceito, incluído ou até mesmo admirado por seus pares — em uma verdadeira espetacularização da própria realidade. No caso da juventude, em especial, esse contexto ganha ainda mais importância, a partir da construção da personalidade e da necessidade de pertencimento.

“Neste caso, o parâmetro são os influencers, os youtubers, os tiktokers. O que eles dizem, ensinam ou vestem torna-se praticamente um imperativo categórico na medida em que as pessoas querem se parecer com seus ídolos, validando suas identidades nessas semelhanças almejadas”, completa Madeline Muller.

Reflexos do isolamento

A rede social, que encontrou um terreno fértil no isolamento social causado pela pandemia, também traz consigo os reflexos dessa falta de interação social, especialmente no desenvolvimento do público jovem.

Nos comentários dos vídeos, estão agradecimentos de jovens que têm medo de ir a jantares requintados “para não errar e fazer papel de bobos”. Outras publicam relatos de viagens para lugares sofisticados a trabalho pela primeira vez, e dizem que conseguiram se encaixar graças aos conselhos que aprenderam com os influenciadores.

As meninas, em especial, se queixam de que não aprenderam a andar de salto por terem passado tanto tempo em casa de pantufas ou calçados confortáveis e, agora, com o retorno das festas, precisarão aprender a subir e descer escadas de salto com vídeos virais.

“O jeito é praticar em casa mesmo, nem que seja no corredor ou na escada do edifício e repetir o andar da Cinderela, sem perder o sapatinho. Mas se perder, sem problemas. Faz parte da experiência. As novas gerações deverão aprender a enfrentar o julgamento das redes sociais e seguir em frente, de cabeça erguida, mesmo descalças”.

No entanto, nem toda recepção é positiva. Os comentários favoráveis dividem espaço com críticas sobre certos conselhos serem exagerados e desnecessários. Diante das dicas, existe espaço para questionar até que ponto a seleção de regras é uma forma de trazer de volta o aspecto histórico que prega o elitismo.

Senso crítico e o peso feminino

Nesse universo dominado por vídeos virais e regras de convivência, uma característica chama a atenção: as influenciadoras são, predominantemente, mulheres, ensinando regras e normas de adequação social a outras mulheres.

Na visão da professora da ESPM, essa proeminência feminina é resultado de um histórico patriarcal milenar. “Historicamente, as mulheres foram condicionadas a se adequar, sendo que esses códigos de vestir e se portar, por exemplo, afetam muito mais a condição física delas do que dos homens”, comenta.

Lembre-se dos espartilhos que tiravam o ar para alcançar a sonhada “cinturinha de vespa”, ou das famosas “anquinhas”, focadas em exibir a silhueta melhor aceita em suas respectivas épocas.

Para ser elegante, ninguém precisa andar reto se equilibrando com livros na cabeça, como se ensinava nos antigos cursos de postura. A profissional ressalta que a elegância e a feminilidade não devem reproduzir uma estereotipação da mulher e o estabelecimento de padrões comportamentais e estéticos irreais.

“Elegância é adequação, e isso se aprende na observação, no convívio, com bom senso e espírito crítico. Há muitas bobagens ensinadas nas redes sociais, é bom prestar atenção ao consumir esses conteúdos e não se tornar mais uma vítima de regras descontextualizadas ou modinhas sem noção”.

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