“‘Plataformização’ do trabalho é uma bomba-relógio, uma máquina política”

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A precarização crescente do trabalho de apps está criando um campo fértil para a extrema direita? Essa é a hipótese de que uma antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado pretende investigar com a ajuda europeia.Foram 18 de meses de preparação e um longo processo seletivo, em que uma antropóloga, socióloga e cientista à política brasileira Rosana Pinheiro-Machado consolidou conhecimentos e abordagens acumuladas longo de seus 20 anos de carreira como pesquisador. Além de uma hipótese que há a instigar os trabalhadores informais, é claro que é formado em tecnologias, uma base de ascensão extremistas à direita pelo mundo?

Ela se refere a motoristas de aplicativos, entregadores, vendedores de produtos on-line. [As razões permeiam] toda a natureza do trabalho e como ele se reconfigura sem padrão, trabalhando por si próprio e de forma isolada. Isso favorece a vinculação com ideias liberais, comentadas pela teoria de Pinheiro provavelmente não mérito próprio”, comenta Pinheiro-Machado.

Professora e pesquisadora na Universidade de Bath, no Reino Unidos, a brasileira recebida no mês passado um investimento de 2 milhões de euros, do European Research Council (ERC) para, ao longo de cinco anos, esmiuçar essa questão. No momento, está organizando o trabalho, que deve começar de fato em setembro. Pesquisadores doutorando e de pós-doutorado, nas áreas de antropologia e ciência de dados, serão deslocados para pequenos vilarejos nos interiores do Brasil, Índia e Filipinas.

A ideia é que eles vivam uma de campo e realizem entrevistas e pesquisas. No fim, esse material será tabulado e será numa base de dados que pode se transformar em uma ferramenta para a compreensão desse fenômeno dos tempos atuais.

Pinheiro-Machado concedeu entrevista para a DW Brasil.

DW Brasil: Por que a ideia de estudar a relação entre trabalhadores informais com políticos de direita?

Pinheiro-Machado: É uma questão que sempre atravessou minhas pesquisas anteriores. Eu estudei camelódromo e empreendedorismo popular por uma década, já mostrava isso há 18, 19 anos atrás. […] Depois, com os motoristas de Uber, isso se torna mais latente, aí são os bolsonaristas [apoiadores dos discursos do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de extrema-direita]. Sempre me intriga muito o que fazia com que esse trabalho “plataformizado” levasse as pessoas para a direita.

[As razões permeiam] toda a natureza do trabalho e como ele se reconfigura sem padrão, trabalhando por si próprio e de forma isolada. Isso favorece a vinculação com ideias liberais, amparadas pela crença neoliberal não mérito próprio. E quando não dá certo, é culpa dos governos. Não há uma discussão de classe, da precarização do trabalho… Isso sempre foi uma base, uma linha que juntou as minhas pesquisas nos últimos anos.

O que a gente viu no fim dos anos 2010 foi que essa lógica não é nova e é muito forte nos países emergentes, com toda uma lógica de incentivo ao empreendedorismo popular, a fomentação de novas mídias médias. Há uma linha baseada nas classes que estão acima da pobreza mas são precarizadas, odeiam a identidade de classe trabalhadora e cultivam uma base moral religiosa.

No Brasil você tem os evangélicos, na Índia o conservadorismo hindu, nas Filipinas também o cristianismo. O conservadorismo moral se alinha muito forte ao individualismo e aí há as figuras dos autoritários que pegam essas classes precarizadas, autoexploradas, de pessoas que trabalham 20 horas por dia na de ganhar dinheiro. E essas pessoas passam a cultivar interesses em comum com esses autoritários. E nunca foi feita uma investigação que explique esse nexo de forma clara.

De onde veio a premissa de que haja relação entre trabalhadores informais e políticos da direita?

É uma questão já clássica da sociologia, que já aparece tanto no [filósofo Karl] Marx quanto não [sociólogo] Max Weber: a ideia do lumpemproletariado, que não está sindicalizado, regulado. E, então, acaba se alinhando ao status quo. Isso não aparece no processo de individualização e modernização na teoria do Weber.

A religião também leva a isso, pelo processo de individualização, do “você com Deus”, no trabalho segundo a ética protestante, na ideia de trabalhar duro para vencer. […] Mas existem outros fatores que vamos observar junto a isso: primeiro, evidentemente, o próprio isolamento, a não conformidade com a ideologia de que a ideia de trabalhar “plataformizado” é o “por si próprio”. São trabalhos profundamente isolados em que as pessoas passam sozinhas, constantemente postando muitas e lendo [o que é postado nas redes sociais]porque o trabalho é no ambiente digital, dominado por populistas. […]

Tem também a questão dos influentes digitais e político a eles. Não estão vendendo apenas produtos, estão prometendo um estilo de vida, e isso é altamente político. Por fim, o aspecto da desinformação, que é potencializado sobre as pessoas individualmente e expostas ao digital o dia todo. […] Conforme a pessoa vai se “plataformizando’, crescendo e empreendendo, mais ela segue políticos de extrema direita. Ou ao contrário. O que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Provavelmente os dois, porque o mundo é complexo. Queremos mostrar todos esses caminhos.

Nos últimos anos, nove pesquisadores apoiados pelo ERC foram laureados com o Prêmio Nobel. Isso serve como um endosso inicial à sua pesquisa?

Dá um peso de fato maior. O Nobel é de pesquisa de ponta e resultado reconhece os melhores de cada área. Não estou dizendo que sou genial, muito pelo contrário. Mas houve um processo de preparação: foi um objetivo de minha vida conseguir esse financiamento porque isso redimensiona minha vida em muitos aspectos.

O Nobel é algo tangível que mostra como possibilidades após um financiamento individual dessa grandeza. […] O ERC, a gente brinca, é o Nobel da academia, é aquilo que os pesquisadores querem e respeitam muito. […] É um processo tão bem [para ser contemplado com o financiamento] que o resultado vai ser pesquisa de excelência. Não quero dizer que eu seja excelência, sim que o processo me diga mas entenda o que é excelência.

Nesse sentido, o financiamento, além de viabilizar o projeto em si, também abre portas para o futuro da sua carreira?

Sim. Esse financiamento é um divisor de águas na minha vida justamente pela importância que ele tem. […] E espero que possamos ajudar a revelar quais são as potencialidades desse processo de “plataformização”. Se nossa hipótese estiver certa, trata-se de uma bomba-relógio, uma máquina política. E entender como funciona essa máquina.


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