Confesso: fui informante da KGB

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Espanta-me a notícia celebrada em blogs governistas que o jornalista William Waack, do Jornal da Globo, foi citado em documentos do Wikileaks como informante da Casa Branca.

Está dito lá que ele conversou com um diplomata americano sobre as eleições presidenciais do ano passado e que fez uma reportagem considerada “favorável” às relações EUA-Brasil.

Conheço Waack há mais de 20 anos. Posso lhes assegurar: ele morreria de fome se precisasse sobreviver informando governos estrangeiros sobre o que se passa em governos do PT.

Waack é a pessoa menos indicada para exercer a tarefa pelo simples fato de que os governos do PT nunca quiseram nada com ele, nem ele jamais quis nada com os governos do PT.

Em tais condições, como ele poderia ter acesso a informações estratégicas capazes de satisfazer o apetite da Casa Branca e dos serviços secretos norte-americanos?

Se Waack foi informante da Casa Branca, confesso que também fui – no caso, da temível KGB, o serviço secreto da ex-União Soviética.

Nos anos 80, quando chefiava a redação do Jornal do Brasil em Brasília, conheci um adido da embaixada da URSS. Todo adido era agente da KGB, e eu não posso alegar que ignorasse isso.

Chegava ao fim o governo do último general-presidente da ditadura de 1964, João Batista de Oliveira Figueiredo. E a situação política era por demais confusa.

Gordo, simpático, dono de um bem cuidado bigode, o adido era um homem de seus 40 e poucos anos que não resistia a três doses de vodca. Punha-se logo a cantar canções russas e a chorar com saudades de casa.

A cada três ou quatro meses, convidava-me para almoçar – na embaixada ou em algum restaurante. (A comida da embaixada era um horror.) E implorava para que lhe explicasse o que estava acontecendo.

Eu me divertia. E testava as mais doidas teorias. Se alguma delas dava certo, crescia a admiração do russo por mim.

Quem seria o candidato do governo à vaga de Figueiredo – um civil ou ainda um militar? O que faria a oposição se o candidato fosse um militar?

Eu respondia me valendo do que lia nos jornais, do que me contavam políticos e do que inventava. Jornalista é o único profissional autorizado a dissertar sobre o que não entende.

Em troca, o russo, sovina, nunca me presenteou com uma garrafa de vodca ou uma lata de caviar; rachávamos a conta do almoço.

Uma vez, em 1985, depois de passar três meses de férias em Moscou, o russo me telefonou:

– Precisamos almoçar. É urgente!

Quando ele saíra de férias, José Sarney presidia o partido que apoiava a ditadura. Ao voltar, Sarney era candidato a vice na chapa da oposição. Como fora possível?

Ulysses Guimarães era o candidato da oposição a presidente quando ele ainda voava para Moscou. Ao desembarcar aqui de volta, o candidato era Tancredo Neves.

Figueiredo estava disposto a manter-se alheio à escolha do seu substituto. Aquilo era simplesmente impensável três meses antes.

Foi um dos mais longos e improdutivos almoços que tivemos. Durou quase uma tarde inteira. Por mais que se esforçasse, o russo não conseguia compreender o que se passara.

– Sarney não ajudou a enterrar a emenda que restabelecia a eleição direta para presidente? Como, dois meses depois, pode aliar-se à oposição que defendia a eleição direta? Não entendo – ele disse.

O russo foi embora de vez para Moscou antes de Tancredo Neves ser eleito, internar-se num hospital às vésperas de tomar posse, ser operado sete vezes, morrer e ceder o lugar a Sarney.

Sorte dele – do russo. Acho que escapou de ser demitido por não ter informado aos seus superiores o que o pai de santo de Sarney vira nos búzios com anos de antecedência.

Vocês não acham que eu deveria ter comentado a tempo com o russo sobre pai de santo, búzios, despachos, essas coisas, acham?

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