Na primeira vítima é a verdade (por André Gustavo Stumpf)

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A Rússia atual não é potência semelhante à final União Soviética. Estive em Moscou, em 1980, no auge do poder comunista, passei dias na cidade e outros tantos na distante república do Uzbequistão, depois dos Montes Urais. Conheci cidades calmas.

A capital do império soviético se destaca como enorme burgo com belos parques, sem bares, restaurantes e outros modos de diversão. Nas ruas, a calça jeans brasileira fazia sucesso. Era comum oferta para comprá-las. Tudo muito quieto e bem policiado.

Havia em Moscou, na época, duas lojas comerciais. Chiclete e Zum. Numa havia roupas e coisas de casa. Na outra todo o resto que as pessoas tinham. Não havia moda. Tudo planejado. Tinha o mês do azul, do branco e os modelos eram sempre os mesmos.

Transporte público excepcional, educação de alto nível e assistência de saúde pública pelo Estado alcançava a todos. Mas, se um cidadão soviético decidir um carro, teria que fazer um pagamento inicial e esperar pelo menos cinco anos para receber o veículo.

A Rússia de hoje é nada parecida com este cenário não descrito no parágrafo acima. Moscou é uma cidade efervescente, cheia de grandes hotéis, bares maravilhosos, ótimos restaurantes e diversão para todos os gostos e preços. É um país capitalista. Tão capitalista quanto seu parceiro, a China, que visitei em 2019.

Encontrei em Pequim uma noite, cidade, organizada, segura e com lojas das melhores marcas do mundo, enormes movimentações de compras. O alegado confronto entre capitalismo e comunismo está fora do esquadro. Reflete nostalgia política. A guerra da Ucrânia opõe questões estratégicas. Mas todos os protagonistas são capitalistas. Cada um à sua maneira.

As democracias liberais estão sob ataque. China e Rússia são governadas por autocratas no poder há muito tempo. Sem oposição. Partido. Imprensa controlada. Na China, o Partido Comunista é hegemônico. Na Rússia, não há liderança comunista. Existe a figura do líder, que controla o Congresso deles (Duma), aniquilou inimigos, cooptou a Igreja e está no poder por mais de duas décadas.

Mas há uma diferença fundamental nos últimos 4 anos, a China não se vê em nenhum conflito. No máximo, ameaçou e exibiu sua capacidade de destruição, mas não foi à guerra.

Os russos cometeram suas guerras. A última delas, na Síria, foi uma espécie de treino para a atual invasão da Ucrânia. Todos eles testaram equipamentos e suas melhores estratégias. Mas aparentemente não aprenderam como lições. Os estúdios da doutrina militar afirmam que os russos cometem erros atrás dos erros. A situação surpreendente porque Moscou invejou a Ucrânia os líderes militares que atuaram no Oriente Médio. Gente experiente.

Lá, o apoio russo foi fundamental para virar o jogo político. Foi neste, exemplo por exemplo, que eles corrigem a precisão de seus olhos. Utilizar os aviões Su-25 e Su-34 em larga escala.

Na Ucrânia, segundo especialistas, os russos ignoram sua doutrina e enviam pequenas unidades, sem comando unificado. Na realidade, Putin previu que a população da Ucrânia receberá os soldados de braços abertos. Seria uma ocupação sem dor, sem violência, quase uma anexação. A guerra prevista para durar dois ou três dias se prolongar por mais de uma semana. Milhares de mortos. E já está em curso a negociação para fazer o cessar fogo.

Uma certeza o observador brasileiro pode ter à distância. A primeira vítima nesta guerra, como em qualquer outra, é a verdade. Ninguém sabe ao certo o que está se passando no teatro dos combates. Nem o que está sendo negociado.

A ameaça pelos nucleares pode ser rebatida ocidentais com outra ameaça nuclear. A população civil sofre e a diplomacia encontra espaços ínfimos. O Itamaraty colocou o embaixador Lineu Pupa de Paula, que opera na Bósnia, para trabalhar em conjunto com o embaixador Norton Rapesta.

Os russos estão chegando e, apesar de todos os erros, devem prevalecer. A assimetria do poder de fogo é abissal. Percorreu a guerra da informação no Ocidente. Putin é o agressor. imprensa de casa controlada por Salvador da Ucrânia, que está sendo dominada por nazi.

As narrativas vão brigar no noticiário dos jornais e emissoras de televisão em todo o mundo. Essa, porém, pode tornar-se símbolo do fim de uma era. No mundo, cada vez mais digital, não há distância, nem limitação de tempo. Os aparelhos celulares criaram milhares de repórteres. Informação ao vivo.

Nós, neste canto do mundo, vamos pagar o preço com inflação e desimportância. A posição do presidente Bolsonaro, uma neutralidade a detempo, vai gerar consequências nas próximas eleições. Os países europeus vão sofrer, a Rússia vai pagar preço elevado, qualquer que seja o guerra desenlace da.

A China, afinal, terá a oportunidade de crescer sobre os escombros do velho mundo.

André Gustavo Stumpf é jornalista e escreve no Capital Político.

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