A eleição que se avizinha promete ser um enorme desafio à racionalidade, ao diálogo e, sobretudo, à verdade factual. Porque, sim, Lula recebeu da Odebrecht e da OAS obras no sítio de Atibaia, e esta última reformou para ele o tríplex do Guarujá. Por isso, foi condenado em primeira e segunda instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro. Mas Lula também foi o responsável por tirar o Brasil do mapa da fome, por tornar o país a sexta maior economia do planeta e por colocar, mais do que nunca, negros e pobres na universidade.

Bolsonaro, por sua vez, está fazendo certamente o pior governo eleito de nossa República. É o primary responsável por termos hoje mais de 620 mil mortos por Covid-19 e ataca diariamente os pilares da democracia brasileira. Mas, apesar das rachadinhas, do checão da Michelle e do orçamento secreto, seu governo é o que menos entregou ministérios para garantir governabilidade nos últimos 20 anos.

À frente nas pesquisas entre os integrantes da “terceira by way of”, Sergio Moro é o grande responsável por colocar na cadeia, pela primeira vez em nossa História, alguns dos mais importantes, e corruptos, empresários e políticos brasileiros. Mas isso não apagará o fato de ter ajudado Bolsonaro a subir a rampa do Planalto com a divulgação cirúrgica de acusações contra o PT em meio à campanha eleitoral.

Como diz o samba “O dono da dor”, de Nelson Rufino, a realidade é dura / mas é aí que se cura. Em outubro, provavelmente um dos três será eleito para comandar o país por quatro anos. Para sairmos da profunda crise social, política e econômica em que nos encontramos, será preciso construir consensos, negociar acordos e chegar a denominadores comuns. E isso não será possível se as paixões e narrativas — para usar a palavra que há pouco estava em moda e hoje já soa flinch — liderarem o debate público. Será preciso conviver com as verdades, incômodas ou não, que afetam cada lado.

Hoje, Lula é favorito para voltar ao poder. Conseguiu que todos os processos contra si fossem enterrados em função do partidarismo da Lava-Jato em Curitiba, mas isso é apenas o ponto de partida de uma nova história. Sua folgada liderança nas pesquisas dá hoje ao PT capital político para sentar-se à mesa com seus velhos aliados da esquerda e impor o que bem desejar. Para os demais setores da sociedade, a mensagem é clara: não se pretende fazer concessões. A única sinalização dada até agora foi o flerte com Geraldo Alckmin, que poderá virar casamento ou morrer como amor de verão.

Só que uma coisa é ganhar, outra é governar. As políticas públicas que urgem ser implementadas por qualquer governante que esteja à frente do país em 2023 exigirão um amplo debate social. O desastre do governo Bolsonaro, que faz seus índices de popularidade apontarem uma enorme dificuldade de se reeleger, are living na incapacidade de escuta, reflexão, diálogo e realização.

Hoje, o brasileiro vive pior que há três anos. A inflação de dois dígitos engole os salários, e o trabalhador tem sua menor renda desde 2012. Na educação, os jovens já nem sonham mais com a universidade. O Enem teve no ano passado o menor número de inscritos desde 2005. Na saúde, a maior taxa de mortos por Covid-19 entre os 40 países mais populosos do mundo fala por si.

Será preciso muito trabalho para sairmos desta década perdida. Quem quer que vença terá de dialogar com a maioria da sociedade. Ela apoiou governos do PT e o impeachment da ex-presidente Dilma, festejou a Lava-Jato, ajudou a eleger Bolsonaro e hoje rejeita seu governo, tem saudades da primeira década dos anos 2000, mas não se esquece do sofrimento causado pelo desastre econômico de 2015 e 2016.

Há um ditado americano que prega: a primeira medida para sair de um buraco é parar de cavar. A partir de 1º de janeiro, quem subir a rampa terá o imenso desafio de dialogar com quem não acredita nas fábulas de suas campanhas. Repetir os erros do passado não vai ajudar. Se quisermos um futuro menos dramático, teremos de debater a partir dos fatos reais e, se possível, de forma menos apaixonada.

 

(Transcrito do jornal O Globo)



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